Funk proibido e violência de Estado: a prisão dos MCs Frank, Tikão, Max, Dido e Smith

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20/05/2012
Por Carlos Palombini


Execrado e exaltado na mídia, o funk carioca é o primeiro gênero brasileiro de música eletrônica dançante, nossa house music. Como a house de Chicago, o funk carioca resulta da utilização de equipamento eletrônico barato na criação de música para jovens marginalizados: negros gays de Chicago; habitantes de regiões urbanas do Rio de Janeiro abandonadas pelo Estado. Apesar do nome, o funk carioca não deriva diretamente do funk norte-americano, mas de uma variedade de hip-hop conhecida como Miami Bass.


Saudoso baile da Chatuba, em 2009. Era conhecido como o “Maracanã do Funk”
 

Nos anos 1970 a juventude dos subúrbios e favelas do Rio começou a reunir-se para dançar ao som de discos de soul e funk norte-americanos em bailes que chegavam a atrair, a cada fim-de-semana, de quinhentos mil a um milhão de jovens. O electro e o Miami Bass sucederam ao funk nos anos 1980. O primeiro disco de funk carioca foi gravado em 1989. Estima-se que em 1996 ocorressem cerca de oitocentos bailes por fim-de-semana na Grande Rio, cada um reunindo entre quinhentas e dez mil pessoas, num total de pelo menos um milhão e meio de jovens por semana.

O funk carioca é hostilizado por moradores das favelas que o associam ao estigma da violência e do crime. Para Hermano Vianna, ele é “o excluído do excluído”. É necessário compreendê-lo como apropriação de música negra norte-americana em reação a atos de violência física e simbólica perpetrados pela mídia, os indivíduos, a sociedade civil e o Estado contra uma juventude urbana marginalizada. O funk carioca representa a ruptura da mística da integração subordinada.

Objeto constante das preocupações da Assembléia Legislativa do Estado, os bailes funk são regidos por legislação específica.

Entre 3 e 31 de outubro de 2010, o segundo turno das eleições presidenciais acirra o enfrentamento entre, de um lado, uma coligação de centro-esquerda cujos trunfos são a popularidade de um presidente em exercício e o entusiasmo de uma nova militância na rede mundial, e de outro, uma coalizão de direita impulsionada pela grande mídia. Na manhã de 8 de novembro, quatro pessoas ateiam fogo a dois automóveis na auto-estrada Grajaú-Jacarepaguá dando início a uma onda de ataques incendiários a veículos supostamente promovida por uma das facções do tráfico de substâncias ilícitas no Rio, o Comando Vermelho. Esses ataques servem de pretexto à invasão, nos dias 25 e 28 de novembro respectivamente, da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, redutos do CV, colocando em cena o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e as Polícias Militar, Civil e Federal. Entre os dias 14 e 16 de dezembro, os MCs Frank, Tikão, Max, Dido e Smith são presos por incitação ao crime, apologia ao crime ou ao criminoso, formação de quadrilha e associação ao tráfico.

Paula Anacaona entrevista Carlos Palombini, professor de musicologia na Universidade Federal de Minas Gerais

P.A: Como você começou a se interessar pelo funk carioca?

Bonde de dançarinos, Baile da Chatuba da Penha – novembro de 2009

Quando me preparava para as provas do Instituto Rio Branco em 2001, eu fazia academia, às vezes na companhia de dois jovens. Durante todo o treino, eles recitavam frases incompreensíveis: “então martela, martela, martela o martelão” ou “tchutchuca, vem aqui com seu tigrão, vou te jogar na cama e te dar muita pressão”. Eu me perguntava: que lugar é esse onde eles vão achar essa linguagem desconhecida que os diverte tanto? Ao mesmo tempo, eu lia nos jornais críticas à suposta decadência da música brasileira, ao analfabetismo que nela se expressava, a sua pobreza de espírito, a sua falta de requinte. Antes mesmo de ter escutado essa música, ela já se tornara interessante para mim pelas reações imbuídas de preconceitos de classe e de cor que suscitava. Tudo se esclareceria muito rapidamente numa manhã de sábado, numa rua tranqüila de um bairro arborizado. O sinal fecha. Um carro freia. De repente, a todo o volume, o Bonde do Tigrão.

Aquele baixo, macio como um soco; aquela voz sem passado, áspera como a de todo o dia; aqueles termos, agora compreensíveis, e sobretudo, aquele piano acid house, reciclado dez anos depois, numa mistura onde tudo o mais era novidade para mim. Instantaneamente, os rapazes da academia, as críticas dos jornais e a sexualidade negra em Gilberto Freyre faziam sentido, explicando-se mutuamente. O funk carioca era “a vingança do negrão tarado”, um fantasma branco que a Cidade de Deus devolvia à sociedade que o engendrara.

P.A :Como você resumiria o funk carioca?

O funk carioca me aproxima daquilo que me parece mais vivo na cultura brasileira: a favela e seu enigma. O enigma de sua rejeição: a favela se mescla ao asfalto, e o discurso sobre a música brasileira se constitui em torno dessa geografia: a modinha e o lundu, a casa-grande e a senzala, o barracão e o arranha-céu, a casa da Tia Ciata…

O funk carioca é “a arte de compensar uma certa carência da produção por uma extrema engenhosidade na distribuição dos restos”. O que toca à favela são os restos.

O morro canta em língua própria no funk, mas não faz tudo o que diz. No baile, homofobia e homoerotismo se combinam. O machismo é reversível no funk: a mulher pode ser o macho ali. A liberação sexual no funk é liberação de fantasias, da linguagem. Nada é o que parece, e no entanto pode ser. Não foi sempre assim que o Brasil falou?

Sua realidade é a de milhões de brasileiros que buscam saídas e ouvidos.

P.A Existe um funk consciente?

“Por que o funk não me diz umas verdades terríveis?” Porque o funk é a verdade terrível. Na primeira metade dos anos 1990, ele falou da função social dos bailes, da solidariedade entre os pobres, da amizade entre os morros; pediu e obteve o fim das brigas. Pediu o reconhecimento da dignidade do favelado, a ação das autoridades, a inclusão da favela na paisagem do Rio. Não obteve. Passou a falar para as comunidades. Deu vazão à sexualidade do homem negro, suprimida. Deu expressão à ética do crime. Solidarizou-se com patrões, vapores e falcões. Deu emprego e reconhecimento a MCs, DJs, dançarinos. Falou do orgulho de pertencer a uma Penha dominada pelo tráfico, e não pela polícia. Exaltou a humildade. Foi desprezado pelo hip-hop, do qual é filho legítimo. Mas juntou-se a Mag e fez denúncia também:

Aqui o inferno já é, ninguém tem mais fé e só brota certeza,
e se os cliente subir e comprar minha maconha, é comida na mesa.

Aqui não tem hospital, ninguém traz remédio, mas traz Parafal,
traz fuzil, granada e as rajada de UZI, e os traçante aqui é normal.

Maconha, pó, haxixe — vixi! — e agora tem crack…
O meu povo quer casa, emprego, comida, e vocês só me mandam o PAC?

Imagina se o povo revolta e cai pro asfalto na fome de saque?
O Brasil em pleno ano 2000 me lembra o Haiti e a guerra do Iraque.

Não me vem com esse papo furado dizendo que eu faço apologia ao crime,
só te mostro que o bagulho é doido e que ‘cê nem sonha em plantar no regime.

P.A: Como você responderia às acusações de machismo e apologia?

Flavia, dançarina de funk, Vila Cruzeiro 2005

A virilidade mirabolante do funk carioca é um ato de linguagem. O documentário Sou feia mas tô na moda mostra funkeiras assumindo o discurso masculino sexista para voltá-lo contra si mesmo. O funk é uma forma de humor. As páginas impressas que se enojam dele já prodigalizaram bundas, racismo e homofobia para o macho castrado da ditadura.

O funk pode ser proibido, sensual (putaria), consciente, melody, de raiz, evangélico, montagem. Os limites entre o crime, o erotismo, a consciência, o romantismo, as raízes, o Evangelho e a fala desumanizada não são precisos. No funk proibido, o MC dá voz a um personagem que fala de crimes futuros:

Faz uma cova na beira do rio que hoje vai ter churrasco,
vai ter churrasco pra geral,
mas dessa carne ninguém vai comer
porque isso é esculacho:
carne de X-9 a gente passa mal.

De crimes presentes:

Nos Três Cu eu meto bala, eu meto bala, eu meto bala!

De crimes passados:

Cheiro de Uê queimado, Café foi espancado e o Robertinho era um viado,
o Celsinho é um medroso, tomou coça na cadeia, Beira-Mar dedo nervoso!

Trata-se menos dos atos de violência que do código de ética que eles exprimem.

Diz a lenda que o Caveirão entra na favela ao som de:

Homem de preto, qual é tua missão?
Entrar na favela e deixar corpos no chão.

Incitação ao crime? Você vai incriminar os funkeiros da PM pelo uso que seus colegas fazem da música? Ninguém incriminaria Beethoven pelos usos políticos que acharam para a Nona Sinfonia. Os MCs Granada e Fuzil foram presos por seus superiores militares, provavelmente não por incitação ao crime, mas por vazamento.

Explique então por que Cidinho e Doca não podem cantar:

Morro do Dendê é ruim de invadir,
nós c’os alemão vamo se divertir,
porque lá no Dendê vou te dizer com’é que é,
a gente não dá mole nem pra DRE.

Mas a música pode figurar no filme Tropa de Elite, sem que os intérpretes sejam citados. E a trilha pode tocar no rádio depois. Será porque os crimes dos quais Tropa de Elite faz apologia são perpetrados pelo Estado?

P.A: O que você vê no funk proibido?

O funk proibido é a expressão nítida da vontade de potência, do poder de uma elite, de uma meritocracia exercitada no crime, ainda que esses méritos sejam desprezíveis diante de grupos cujos valores são muito parecidos: habilidade no manejo das armas, poder de tiro do pênis, número de mulheres disponíveis na proporção inversa de suas idades, carros importados, jóias, bebidas, trajes de grife. Não conheço nada mais original, mais visceral e mais vivo na música brasileira. Isso não quer dizer que eu defenda os crimes do CV. Compreendo-os como reação à violência de Estado — origem histórica do CV.

No baile do clube Boqueirão do Passeio, 2005

A situação em que vive a população pobre no Brasil é a realidade mais atroz. O funk proibido representa o fim dessa passividade, dessa crença na boa vontade dos governantes, que é a coisa mais admirável — e a mais exasperante no povo brasileiro.

Para a sociedade, o chefe do tráfico e seus soldados não tem outra identidade além da que lhes confere o rótulo de criminoso. Para Smith, o bandido tem consciência, destino trágico. Nem apologia ao crime nem compaixão cristã, é um ato poético. Essa mediação sujeita Smith a duas éticas distintas. Representar empaticamente uma subjetividade transgressiva ao invés de julgá-la: eis o crime de Smith.

P.A: O que você acha da reação do Estado e do encarceramento dos MCs

Meu ponto de vista é o de alguém que se sente agredido não pela linguagem e a cultura da favela, mas pela reação que suscitam. O encarceramento dos MCs Frank, Tikão, Max, Dido e Smith não tem nenhum fundamento jurídico. É a demonstração perfeita da violência interminável de um Estado que semeia o banditismo messiânico contra o qual mobiliza um aparato bélico-televisivo. Sabe-se perfeitamente que a expressão “poder paralelo” é uma inverdade: o tráfico de drogas e de armas no Rio de Janeiro “passa por setores do Estado”, para usar a expressão do deputado Marcelo Freixo. As forças da ordem não invadiram a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão para libertar a população do tráfico — haveria formas mais eficazes e menos espetaculares de fazer isso —, mas para sujeitá-la a suas próprias arbitrariedades. Os chefes mais importantes não foram presos, e suspeita-se que tenham sido evacuados em carros blindados.

Suspeitos são assassinados, inocentes são mortos, residências são saqueadas, não pelo CV, mas pelos funcionários do Estado, para que a população das áreas nobres durma tranqüila, a especulação imobiliária faça valer seus interesses, e a comunidade internacional se assegure de que a ordem será mantida nos eventos esportivos planejados. Esses crimes foram endossados pelo ex-presidente e sua sucessora com naturalidade indigna.

Funkeiro, Baile na quadra da escola de Samba Vizinha Faladeira, 2008

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